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9 de março de 2009

AS REGATAS EM PAÇO DE ARCOS

Numa pesquisa efectuada pelo bardino Hélder Martins, transcrevemos a seguir um texto adaptado da Revista da Armada, onde é referida a importância que a nossa vila teve através dos tempos, na realização de regatas de grande importância que se realizavam aqui no estuário do Tejo.

Com a devida vénia e a devida adaptação, aqui vai o primeiro texto.


"Os primórdios da navegação de recreio no Tejo
e na sua barra"




No ano de 2007 realizaram-se regatas de grande repercussão internacional, em Valência (America’s Cup) e em Cascais (Campeonato do Mundo de Vela Olímpica). Na sequência desses acontecimentos, afigura-se interessante relembrarmos o papel pioneiro de Lisboa no surgimento da navegação de recreio em Portugal, em meados do século XIX.


Lisboa, inicialmente o Estuário e a Barra do Tejo, as Baías de Paço de Arcos e seguidamente de Cascais foram lugares pioneiros na introdução do “Iating” na Europa. É, a esse propósito, importante recordarmos que a Real Associação Naval de Lisboa (R.A.N) fundada em 1856, teve o privilégio de ser o mais antigo clube náutico da Península Ibérica, com os estatutos aprovados pelo Rei Dom Pedro V.

Abel Power Dagge, integrava o pequeno número de súbditos Ingleses residentes em Lisboa, que pela primeira vez criaram um “Sindicato”, termo ligado ao aparecimento das competições de vela. Estávamos em 1850, quando o pequeno grupo formado por Abel Power Dagge, Edward Shirley, Alex Hudson e Geo Alex Hancock aproveitou a visita ao Tejo da escuna “H.M.S Vixen” da Royal Navy, para organizar a primeira regata no Tejo. O vaso de guerra inglês serviu de pontão para o júri da “Carreira de Navios”, com percurso entre Belém, Cova da Piedade, e Rocha do Conde de Óbidos. Neste primeiro concurso, os cinco navios em competição pertenciam aos ingleses.

Em 1852 e em 1854, duas novas regatas foram organizadas com partida no Dafundo e chegada em Paço de Arcos. As provas tiveram alguma repercussão internacional, tendo a revista inglesa “London News” dedicado um artigo ilustrado aos acontecimentos.


Todavia, o grande marco institucional fundador do “Iating” em Portugal, foi incontestavelmente, a criação, em 30 de Abril de 1856, da Real Associação Naval (R.A.N) sob auspício do jovem Rei Dom Pedro V. O objectivo era de “animar a construção e navegação de Iates ou barcos de recreio e promover a distracção das Regatas em Portugal”. Contudo, só foi possível organizar a primeira regata oficial em 2 de setembro de 1858, pelo segundo aniversário da fundação da Real Associação Naval.

A prova teve lugar na Baia de Paço de Arcos e nela participou o Infante Dom Luís de Bragança na qualidade de Comodoro da R.A.N, à barra do “Veloz”, que ostentava orgulhosamente o distintivo da Associação. Curiosamente, o veleiro de recreio do Infante, construído em Lisboa, no Arsenal Real da Marinha, sobre a direcção do construtor naval Conde de Linhares, seguia o modelo doutro primeiro pequeno yacht, o “Prenda”, que lhe tinha anteriormente sido oferecido por J. Garland, A. P. Dagge e Simão Aranha. Revelador da revolução do “Iating” então em curso, os traços dos dois primeiros veleiros do Infante, então Oficial da Marinha Real Portuguesa, inspirava-se no modelo da célebre escuna “America”, do armador Norte-americano M-R-L Stevens. Seis anos após a histórica vitória de Cowes e da criação da nova Taça América, a já mítica escuna americana terá tocado em Lisboa, em 1857, na sua segunda viagem à Europa, para grande satisfação, curiosidade e inspiração dos veladores e construtores navais portugueses.

Ventos e correntes mais propícias do que no Tejo, aliadas à circunstancia do Conde das Alcáçovas, Caetano de Lencastre, Par do Reino e vice-presidente da R.A.N, veranear na Pequena aldeia piscatória de Paço de Arcos, concorreram para que as Regatas do Tejo se passassem a realizar, a partir de 1858 num percurso Paço de Arcos - Pragal - Dafundo - Caldeira de Paço de Arcos - Torre Velha da Caparica - Dafundo - Paço de Arcos.


Em 1858, conforme os anais, entra justamente pela primeira vez em competição o inovador caíque “Pet” , construído nos estaleiros “Parry and Sons” em Lisboa, para “um sindicato” constituído por J. Garland, A.P. Dagge, Simão Aranha, Martel e outros. O navio é alistado na primeira classe de Iates, de mais de 20 toneladas. A partir de desse ano, o veleiro foi adquirido por A. P. Dagge, nomeado primeiro Tesoureiro da Real Associação Naval. O “Pet”, arvorando distintivo encarnado com ovado branco, competirá novamente em Paço de Arcos durante mais de 10 anos, em 1860, 1862, 1864, 1865 e em 1867, ano em que ganhará a regata.


Da Revista da Armada



8 de março de 2009

O PALÁCIO DOS ARCOS



Por curiosidade, e já que se falou aqui no Palácio dos Arcos, aqui vão alguns dos titulares deste palácio.
Dado que a foto não permite uma leitura fácil das legendas, vamos aqui transcrever os nomes dos titulares do palácio, de cima para baixo e da esquerda para a direita, que estão referenciados na fotografia.

Assim temos:

18 - D. Cristóvão de Moura (4º titular)
19 - D. Manuel de Moura Corte Real (5º titular)
20 - D. Caetano de Lencastre (15º titular)
21 - D. Maria Ana de Lencastre (16º titular)
22 - Manuel Maria Ferrão Castelo Branco (17º titular)
23 - José Martinho de Lencastre Ferrão Castelo Branco (18º titular)


28 de maio de 2008

PAÇO DE ARCOS E A SUA HISTÓRIA (01)


Iniciamos aqui uma série de textos soltos, ligeiros apontamentos que fomos respingando aqui e ali e que consideramos de algum interesse para darmos uma visão histórica, nas suas diversas vertentes, sociais e políticas, da vila de Paço de Arcos.

Serão textos não muito longos e esperamos não muito maçudos, que iremos publicando, sem qualquer cuidado cronológico, de autores diversos e aos quais faremos, sempre que isso nos seja possível, referência, que nos darão a todos um enquadramento histórico e principalmente social, desta vila.

Serão agrupados no tema “A História de Paço de Arcos” e no final, se o houver, teremos, na medida do possível, uma visão abrangente, discutível até em alguns casos, do que se passou nesta linda vila durante os séculos da sua existência.

Começamos, assim, com uns textos da autoria de duas escritoras, Branca de Gonta Colaço e Maria Archer, incluídos no seu livro “Memórias da Linha de Cascais” editado numa parceria A.M. Pereira, CMC/CMO. A edição é de 1943, portanto os nossos leitores ao lerem estes textos terão de os localizar nesse tempo, para a narrativa não estar deslocada.




Paço de Arcos
A antiga praia das supremas elegâncias


(Parte I)



Entre a linha-férrea e a avenida marginal, entre Caxias e Santo Amaro, alonga-se uma vila de recorte antigo a que um palácio do séc. XV deu nome e renome: Paço de Arcos.

Um povoado de fundação imemorial, minúsculo, outrora agrupado entre o agro saloio, quintas e hortas. Na época da construção do palácio haveria uns trinta fogos. O lugar mal branquejava sobre a veiga agricultada. Mas já no tempo do Marquês de Pombal a população subia a ponto de haver uma centena de fogos na aldeia.

Povoação de canteiros, de pescadores. Casario Humilde. O rio ainda no fim do séc. XIX atingia as casas que hoje ficam no centro da vila. Toda a parte da vila que se debruça sobre a avenida marginal tem uma situação de maravilha, vale por um miradouro de sonho sobre o azul do Tejo.

Passada a linha-férrea, na direcção das terras, há a encosta que domina a vila. Aí, numa posição privilegiada, Paço de Arcos vai-se alargando pelo bairro da Fonte de Maio. Arruamentos rectilíneos moradias janotas, estilo “Costa do Sol”, gosto modernista que se manifesta, claramente, na rebusca do ar, da luz, do panorama marítimo, da nota de cor dada pelas gelosias verdes e as sardinheiras vermelhas. O palacete dos Condes de Porto Covo, no alto dessa colina privilegiada, é um espécime acabado do moderno gosto urbanístico. Lembra um aduar (vivenda mourisca), construído para um árabe que tivesse feito em Paris a sua educação de bon vivant.

Paço de Arcos foi, há cinquenta anos, a rainha das praias do Tejo. Disso se envaidecia e orgulhava, pavoneando os seus pergaminhos de praia da moda com tão grande enfatuamento que parecia, mesmo, tê-los consigo desde a criação do mundo. Veraneavam ali, desde os meados do séc. XIX as famílias aristocráticas que não transigiam com a promiscuidade social. Mais tarde também se refugiavam na praia elegante todos os banhistas que abandonavam Pedrouços e as outras praias vizinhas de Lisboa, banhistas espavoridos com a invasão desses lugares pelos veraneantes da burguesia endinheirada.

Mas não tardou que Paço de Arcos também fosse invadido por essas camadas de recente lustro e tom, ansiosas de se aristrocatizarem com o trato da fidalguia. Do facto resultou a vila animar-se, movimentar-se, crescer, se não em beleza, pelo menos em tamanho. Jaime Artur da Costa Pinto, que foi um grande animador das praias do Tejo, conseguiu realizar, nessa altura, uma obra que encheu Paço de Arcos de orgulho – um parque à beira-mar e um casino à beira do parque. O casino foi inaugurado em 9 de Setembro de 1875, pelo Marquês da Fronteira. No seu edifício está agora instalada a sede social do Clube Desportivo de Paço de Arcos, casino a que tantas vezes foram príncipes e reis.






O parque tinha jeitos de jardim do género do Campo Grande de Lisboa. Servia para o passeio vespertino das beldades, que se mostravam em filas tagarelas e airosas, vestidas com os seus mais belos atavios, acompanhadas das mamãs e acolitadas pelos admiradores. Todavia, só as senhoras da burguesia se afoitavam à promiscuidade do passeio no parque. As outras, as da velha nobreza, fechavam-se em casa ou nos muros dos seus jardins antigos, curtindo nessa solidão a sua indignação e aborrecimento contra os violadores do aristocrático recanto. A cada nova família burguesa que se instalava em Paço de Arcos, aí comprava terreno e erguia casa, crescia a ira dos antigos frequentadores. Era mais uma que vinha a conspurcar o local sagrado. Partiram por isso para Cascais, formando na vila da cidadela uma outra praia da moda – e logo a burguesia rica as imitou, abandonando também Paço de Arcos por esse mesmo deslumbrante Cascais. A praia desdenhada passou então a ser preferida pelos veraneantes da pequena burguesia, que se lhe conservam fiéis e voltam todos os anos, galhardamente.



O antigo Casino de Paço de Arcos estava instalado num edifício que vemos agora, ao fundo do Parque, mostrando a sua larga varanda envidraçada. Era iluminado a gás. Uma pianista executava as valsas, as polcas, as mazurcas requeridas pela assistência. Nas quintas-feiras e domingos as noites eram de gala. Tocava nessas grandes noites um quarteto. As senhoras paramentavam-se a preceito, sendo considerado de muito bom gosto, nessas épocas, um vestido claro com saias de lã e blusa de seda.

Clube que deu brado no seu tempo. Fervilhava de intrigas, de despeitos, de mexericos. De tudo ali se murmurava – dos vestidos, dos namoros, das relações, dos parentescos, do que cada um era e do que queria parecer. Ao som das valsas enforcavam-se reputações ou garroteavam-se vaidades. Vespeiro de disputas que só o perpassar de gerações acalmou definitivamente.
in "Memórias da Linha de Cascais", de Branca de Gonta Colaço/Maria Archer, 1943


(Fim da Parte I)