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1 de fevereiro de 2010

O PICADILLY

Paço de Arcos e o
síndroma “Picadilly”

Esta tem tantos anos que nem consigo contá-los.

Há, seguramente, meio século atrás, o Café “Picadilly” era o café da elite Paçoarquense assimilada. Porque no U da Praceta moravam, à volta de 50% das famílias, gente militar de altas graduações (o mínimo seria Capitão, coisa infame).

Ali se acoitavam as Senhoras quase todo o santo dia, juntando-se aos fins de tarde, fins-de-semana, e outras situações avulsas, os respectivos consortes (ou sem ela).

Igualmente outra gente que se achava para tal competente, ou se queria auto-promover, ia por lá aparecendo, ‘just in case’.


Vem isto a propósito de que na época vigorava um tipo de educação completamente desusada de hoje em dia (e não façam juízos de valor, porque não sei se melhor ou pior, só sei que diferente), que implicava entre outra quantidade inumerável de coisas, ter de estar em casa, OBRIGATORIAMENTE, antes da meia-noite, e, o que importa aqui, extremo cuidado com a linguagem.

Dizer ‘chiça’ em casa, equivalia a uma enormidade de castigos/penalizações, que nenhum puto quereria arriscar. Consequências muito sérias.


Um dos habituais frequentadores deste Café Picadilly, nas horas ‘off’, era um tal, bem conhecido em muitos quadrantes, General Homem de Figueiredo.

Esta personagem, com ar desabrido, algo labrego, mas de língua solta, que fazia o êxtase da pequenada, pela simples razão que tratava aquela gente, gajas e gajos, como nós entendíamos justo, e ainda por cima com a linguagem mais vernácula (e aqui é que estava o nosso gozo supremo) que é possível imaginar, e que nos era completamente vedada, até em pensamento.

Pois espantem-se gentes incrédulas, a reacção, que nos deixava com um misto de extremo regozijo e de espanto, a mulherada ria-se com o sublinhado invariável…. Ai Sr. General……………..

Ridículo. Mais ridículo ainda, se possível, era os companheiros de armas (?) corarem, ou dizerem …….então pá ………., virarem a cara, etc.

Raros eram os que davam um sorriso envergonhado.


Conclusão, aquela figura pró-labrego, atarracada e desabrida, tornou-se o herói da pequenada, “in no time”.

É, e não só por isso, um ícone esquecido desta terra.




Colaboração do Bardino Fernando Reigosa.


AS ESTÓRIAS DA BARDINAGEM 07

O ‘Lobito’ em Paço de Arcos

Muitos poderão estar esquecidos, mas há um Paçoarquense ilustre, que há 3 ou 4 anos se mudou para algures por deficientes condições da sua velha casa, no Largo 5 de Outubro.

Chama-se a personagem em questão Afonso Gaspena.

Foi atleta do CDPA em várias modalidades, com realce para o Andebol e Basquetebol, de primeiro plano a nível nacional.


Enveredou em termos profissionais, dada também a sua mestria na caça submarina, pela investigação, catalogação e divulgação das mais diversas espécies de seres vivos marinhos e seus ‘derivados’ (conchas, etc.).

Por razões de ordem vária dedicou-se, posteriormente, às técnicas de congelação e preservação de todo o tipo de habitantes marinhos.

Um Senhor, um Companheiro, um Mestre, que todos escutávamos de certo modo enlevados. Com ele aprendi, como tantos outros, muito do que hoje sei, e meço comportamentos.

Não raro o vi sair de casa de cana de pesca já aparelhada, chegar ao pontão, pôr-se á pesca, ‘sacar’ uma quantidade de peixes (robalos, a maioria das vezes) e sair quando aparentemente ainda havia ‘procura’. Certo, certíssimo, é que poucos minutos depois já não se pescava nada. Ele lá sabia. E nunca contou a ninguém.

Como nunca contou as suas técnicas de congelação, donde se ter reformado, extemporaneamente.

Mas o que me motiva a vir aqui é outra coisa, simplesmente extraordinária. Senti, porém, que era necessário, ‘explicar’ minimamente o homem.

Tem a ver com o Lobito. Um cão Serra da Estrela, fidelíssimo companheiro do Afonso, que em tudo observava e cumpria as instruções do seu dono. Sem rebuços.

O que fazia o deleite da meninada, e dos companheiros do Afonso, era a cena crucial.

O Lobito sair de casa ‘colado’ á perna do dono, direcção esplanada dos Limas,

Sentar-se à mesa (literalmente) com o dono, ver-lhe ser servido em pratinho adequado um bolo de arroz (ou um queque, falha-me a memória), ficando em contemplação embevecida, até que o dono lhe dissesse – "podes comer". Então sim, deglutia a iguaria, num abrir e fechar de olhos, sem tocar no prato.


Saudades, destes amigos que desapareceram, dum ou outro modo, e que nos permitem estas recordações saborosas.




Colaboração do Bardino Fernando Reigosa.


25 de janeiro de 2010

AS ESTÓRIAS DA BARDINAGEM 06

À conversa com: LILIANA
(Digníssima esposa do Armando ‘carinhas’ Aires)

De algum modo entusiasmado com as memórias aqui divulgadas, do nosso amigo e companheiro Fernando Sampaio, e até em resultado de uma menção por ele feita, decidi conversar um pouco com a dita Liliana (uma das pessoas que ainda têm memória, mas haverá mais), dando assim início (espero eu) a um ciclo que possibilite ressuscitar recordações das gentes antigas de Paço de Arcos (que não velhas).

Aqui vai o relato, dividido em três secções principais:

A Liliana recorda-se vagamente da peça referida pelo Bardino Fernando Sampaio (aqui há Fantasmas????), mas teria pouco texto, daí preferir recordar outras.



1) A peça de teatro História de Portugal


"Logo a seguir (à peça referida pelo Fernando Sampaio) veio a "História de Portugal", que foi feita com apoio da escola, porque era a história de todos os reis Portugueses. Esta peça foi há 57 anos. Tinha eu 10 anos. Andávamos todos na 4ª classe.

Quem encenava era o Tavares que tinha muito jeito e a Bébé (Isabel Castro) também ajudava. A Bébé ia quase sempre pintar-nos, e como tinha também conhecimentos de guarda-roupa, era ela quase sempre que tratava dessa parte. Trazia a roupa emprestada dos teatros. Já viste o que era os nossos reis todos vestidos a rigor, desde a rainha Santa Isabel, a Dª. Inês de Castro, etc.?

Os papéis principais foram o D. Afonso Henriques feito pelo Américo Bravo que já morreu, a D. Inês de Castro, que seria morta depois, com os filhos príncipes, todos vestidos a rigor.

A Rainha estava sentada num cadeirão muito bonito, tudo vindo de casas muito ricas de Paço de Arcos. Ela muito bem vestida, ouve barulho e pergunta “És tu que vens da caça, meu senhor?”, e vê entrar os três que a mataram, encapuçados, os miúdos fogem para debaixo do maple, mas eles matam-na e matam um dos miúdos.

Quem fazia de Rainha Santa Isabel era a Tanica que era dos Lynce, uns irmãos gémeos que moravam na Fonte de Maio, e tinha um irmão que era o Tonico.

O peça tinha dois actos, cada um com dois ‘compéres’, um rapaz e uma rapariga, com vários quadros (cerca de 6) cada.

No princípio (compére) era o Américo Bravo a fazer de saloio, porque tinha vindo há muito pouco tempo do Alentejo e ainda falava daquela maneira típica, e a Tanica que era toda espevitada, uma menina criada aqui com famílias bem, que eram os Lynce.

Começava com ele a perguntar a ela:

- Ó menina por favor (ele vestido à saloia e ela toda vestida de organdi, cheia de folhos como se usava na altura) pode-me dizer onde mora o professor?

Ela olhava para cima para ele, porque era baixinha e gordinha, e dizia:

- Professor? O professor mora ali, mas porque é que tu queres saber? Virás para a escola também?

E ele responde:

- Ai, se me ensinassem era uma esmola, pois não sei ler nem escrever nem nunca vi uma escola.

- Então vou-te dizer onde mora o professor, para tu poderes ir para a escola, mas vais ver já como os nossos reis eram grandes.

Então fecha o pano e aparece o primeiro Rei.

- Eu sou D. Afonso Henriques, o primeiro Rei de Portugal, e esta coroa com que me vês conta as guerras que eu ganhei.

Olhava para a plateia. Assim como quem estivesse á procura e dizia:

- Se houver Mouro pimpão que se atreva a um desafio eu faço dele um esfregão um corrupio.

Depois parava e dizia:

- Já vi, perderam o pio (como quem diz, já não há gente para lutar).

Depois fecha o pano, e vêem outra vez os ‘compére’, e ela diz:

- Então gostaste do primeiro Rei de Portugal?

Ele responde:

- Gostar, gostei mas deu-me vontade de ir aos fagotes ao Rei (porque ele perguntava se havia alguém para lutar).

E ela diz:

- E nasceu gente muito boa, por exemplo a nossa Rainha Santa. Queres ver como ela foi generosa?

Sobe o pano outra vez. Aparece a Rainha Santa muito bonita com o manto caído e as criadas do Rei a porem pão. Ela tinha dois mantos e um estava dobrado.

Quando aparece o Rei, pergunta:

- Senhora que levais vós no vosso manto?

E ela diz com um ar muito triste e apavorado (bem ensaiado):

- Senhor, senhor, são rosas meu Senhor!

- Rosas em Janeiro? Pergunta o Rei. Não é coisa vulgar, mas mostrai-me primeiro para que eu possa acreditar.

Ela olha para o céu, põe as mãos e deixa cair o manto caindo as rosas (do manto de dentro), e ele então ajoelha-se no chão e diz:

- Ó milagre Santa, ó milagre Santa, perdoai-me por não estar habituado a ver estas bondades nas vossas mãos.

Então beija-lhe a mão.

Cai o pano.

Vem a ‘compére’ a chorar, e pergunta:

- Então gostaste da nossa Rainha?

D. Afonso Henriques, D. Dinis, a Rainha Santa Isabel, a D. Inês de Castro e mais dois ou três completavam o primeiro acto.

Depois vieram outros ‘compéres’. Lembro-me que ela era uma rapariga chamada Lina que queria ser hospedeira de bordo, e foi, e morava no mesmo prédio do meu tio António, por cima da loja das bicicletas, com uma tia.

Os ‘compéres’ estavam ao contrário. Ele é que era um senhor.

Aqui entravam o D. Nuno Álvares Pereira, o Gungunhana, muito gordo (quem fazia o papel era o Ramiro Boavida - filho da Arlete Boavida – e que também fazia muitos papéis como eu, e que morava na Fonte de Maio; infelizmente morreu o ano passado).

Entretanto para dar tempo à mudança dos cenários, havia sempre coros, e poesia ou ballet com a Margarida Castro e Silva, que também entrava nas peças de teatro porque dançava muito bem; andava no ballet em São Carlos.

O Ramiro, era gordo e pequenino, (já a mãe era uma mulheraça; a filha dele - que é muito forte - é agora professora na creche), mas muito engraçado, sentado no chão de tanga e acorrentado, todo pintado de preto, com uma grande cabeleira.

Havia também no segundo acto a Padeira de Aljubarrota que era eu, o Rei da Restauração, D. João IV, etc.

Enquanto éramos pintados vinha a Tanica dizer o poema ‘A neve’:

-Batem leve, levemente como quem chama por mim; será chuva será gente; gente não é certamente e a chuva não bate assim; talvez uma agulha bolia na quieta melancolia dos pinheiros do caminho; fui ver, a neve caía do azul cinzento do céu; branca e fria há quanto tempo eu a não via; etc. Levou muitas palmas, as pessoas ficaram comovidas.

Outro era a dizer o ‘Dia de anos’:

- Com que então caiu na asneira de fazer na quinta-feira 26 anos; ainda se os fizesse, mas fazê-los não me parece de quem tem muito miolo; não sei quem me disse que fez a mesma coisa que o ano passado; etc.

As vestes eram a condizer, para ‘A neve’ vinha toda de branco, para o ‘Dia de anos’ vinha toda enfeitada.

Eu era a papoila. Dizia um poema que começava assim:

- Vista do alto da serra com um ar muito tolo nasceu num monte de terra, dona papoila …. Já não me lembro de mais porque era muito grande. Era de um autor português que, salvo erro se lia no primeiro ano.

Havia outra que era muito gira que se chamava ‘O balão’ que vinha no mesmo livro:

- Houve festa, houve bolo, rebuçados e muitos balões, e no fim a mãe disse ao filho, vamos para a cama que já é tarde; abriu a janela e ele disse: mamã, mamã, olha, olha; a mãe olhou, viu a lua mas pensou e disse para o filho: aquilo meu filho é o balão do menino Jesus; e deitou o menino. No outro dia o menino saltou da cama, abriu a janela e gritou: mamã, mamã o menino Jesus rebentou o balão.

Havia também hinos, o dos marinheiros:

- os marinheiros aventureiros, são sempre os primeiros ….etc. Cantavam todos muito afinadinhos, vestidos a rigor, por exemplo neste estávamos todos vestidos de marinheiros, e quem arranjava os trajes era a Bébé.

Lembro-me de lhe dizer que o Sr. Virgílio (Tavares) não tinha arranjado um fato para o número da padeira de Aljubarrota, e ela responder:

- isso não tem importância. Pedes á tua mãe uma saia rodada daquelas de lavar a roupa, e um avental e depois uns sapatos, ou tamancas, que ainda é melhor, e a gente vai ao Félix pedir uma padeira. A pá era tão grande e tão alta que eu quase não podia com ela, enquanto dizia: Se houver um espanhol que se atreva a desafiar-me, eu faço dele uma carcaça, um pão grande que ponho no forno a assar. Começava assim: eu sou uma mulher do povo, grande, valente e honrada que nasceu do nosso povo para servir a Pátria amada; depois vinham os espanhóis, metiam-se lá dentro e eu pegava na minha pá e tinha que balançar. Mas a pá era muito grande e aquilo deu uma risada enorme.

Mas foi muito bonito. Era a história de Portugal toda.

Além do D. Afonso Henriques, havia o D. Dinis, que entrou de enxada e pinheiros na mão para plantar o pinhal de Leiria, a Dª. Isabel, D. João, a Dª. Filipa de Vilhena (que era a Gualdina), a armar cavaleiros os filhos. Depois foi o D. Nuno Álvares Pereira na batalha de Aljubarrota, etc., até ao Salazar, que foi o último quadro.

- O Salazar, que era o Paulo Brás, fez uma homenagem às mães de Portugal. Muito bem caracterizado, com óculos, cabelos grisalhos, ar sério. As mães de Portugal, eram todas as mães, as criadas de servir, operárias, que apareceram depois da guerra do Hitler, as mulheres do povo sem serem pobres, que já iam bem vestidas, e as senhoras de vestido, salto alto e mala, e de chapelinho. Eu era a primeira senhora. Como tal fui logo recebida, fiquei ao pé dele e fui a única a ficar sentada, as outras ficaram em pé. Eu dizia que ele era um grande estadista e que não achava bem que não gostassem dele, porque ele era o único que tinha evitado a guerra civil em Portugal (a senhora que eu representava sabia muito de política). Ia vestida com um ‘tailleur’ da minha irmã que se tinha casado há um ou dois meses. Atrás tinha um grande alfinete porque eu era muito magrinha, salto alto com algodão e barbas de milho á frente para os pés não escorregarem nos sapatos, e lá ia eu trocando as pernas (estava mais habituada a andar descalça).

O quadro do Carmona também foi muito giro, mas eu não entrei, porque era logo a seguir e não tinha tempo. Apesar de saber os papéis todos do princípio ao fim.

A professora na escola dizia-me:

- Pois, do teatro sabes tudo, mas aqui nem por isso.

Quando alguma estava doente nos ensaios, era eu que ia substituir. Quem fazia de Carmona era o Tonico que era muito bonito. Com uma cabeleira branca, farda do exército, etc.



2) A peça de teatro Nau Catrineta


A seguir foi a Nau Catrineta.

Os mais pequenos andávamos no palco, que era a nau, com garfos e facas a perguntar aos outros:

- Tens aí alguma coisa para o almoço? e eles respondiam:

- Não, só se for…, olha toma lá o meu cinto e põe de molho; era uma altura que não havia nada para comer.

O comandante era o irmão do Reinaldo, o João Vasco (actual Director do Teatro Experimental de Cascais), que é hoje artista de teatro.

Como o Tavares arranjou um trabalho em Lisboa, foi ele que organizou mais a Nau Catrineta.

Eu era a fada. Eu tinha que ser sempre a principal porque ele gostava muito de mim.

O comandante estava no cais e dizia:

- Já vejo no horizonte novas caravelas, que novas me trarão? Será Diogo Cão? Será a Nau Catrineta?

A peça era a vida a bordo, com os marinheiros a subirem os mastros dizendo:

-Meu comandante, meu capitão, não vejo nada senão areias; e eles perguntavam:

-Mas serão areias de Portugal? Mas eles não viam mais nada porque a Nau Catrineta desapareceu, nunca chegou a terra.

Eu era a fada que entretinha as filhas do comandante que também iam a bordo, porque se elas estavam sem fazer nada, nunca mais passava o tempo. Cantava a história do relógio, vinha com a varinha e tocava numa e dizia:

-Tu agora és um relógio, e aparecia um relógio que começava a dar horas. Eu como era a fada andava pela Nau toda e quando via alguém triste tocava com a varinha e dizia (por exemplo): não estejas triste, pensa que estás a comer um bom bocado de comida; e aparecia á frente dele um prato de comida.

Eu era uma miúda de doze anos muito loira e bonitinha, cabelos muito compridos e encaracolados (com papelotes da véspera), vestida com aqueles fatos que eu adorava, sentia-me mesmo fada. Tinha poucas falas, porque como não havia muito que fazer a bordo, cantava-se muito.

Quem também trabalhou muito para esta peça foi a Bébé, que ainda mora ao pé da Oceania.



3) Memórias a avulsas


Fizeram-se muitas representações no cinema.

A Floripes tem memória de muitas coisas, porque também era grande entusiasta do teatro. Antes do meu tempo, também houveram muitas peças representadas no clube, com ela a minha irmã Preciosa e a minha cunhada Conceição.

Quem fazia todas as encenações eram o Tavares (que era professor, e estava proibido de dar aulas por razões políticas) e a Bébé. Este Tavares era filho da nossa professora, mas estava mais adiantado, porque a mãe só tinha a quarta classe. Ele é que ensinava a admissão ao liceu e dava explicações para o primeiro ciclo do liceu.

O João Vasco gostava muito de mim. Quis-me levar para o teatro, a minha mãe é que não deixou. Ele era muito meu amigo, as pessoas até pensavam que éramos namorados, mas não até porque ele nunca gostou de mulheres. Ele era o nosso ídolo. Tem mais dois anos que eu mas adorava-me. Ainda um dia destes perguntei á irmã como se chamava ele, porque para mim era sempre o Fernando.

Eu não fui para o teatro porque a minha mãe não me deixou. Primeiro era preciso dinheiro e eu tinha que trabalhar. Ela não se importava, mas eu tinha que me sustentar, vestir e calçar, e o teatro não dava dinheiro. Tinha 12 anos e o meu pai já não podia sustentar-me.

Em conversa um dia destes com o Paulo Brás perguntei-lhe:

- Tu lembras-te das peças de teatro?

- Se me lembro, eu fazia, nem quero que saibam agora, fazia de Salazar.

- Olha eu, como sabes fazia teatro, entrava em todas a s peças, ali em baixo no clube primeiro e depois passou para o cinema (Cine Teatro de Paço de Arcos) porque era maior e as pessoas tinham onde se sentar. As pessoas iam de graça, algumas davam qualquer coisa, para a ajuda das despesas que eram muitas.

Um dia destes vi a Tanica. Ela e a Nani (irmã do Pereira Júnior), eram muito amigas, as mães também eram muito amigas, eram ricas, andavam nos chás, não andavam com a minha mãe. Mas elas andavam connosco, eu era pobre, até podia andar descalça mas ia comer a casa delas.


A Comunhão Solene.


A Tanica, não consigo lembrar-me qual era o nome, mas tenho a impressão que era Teresa, casou com o filho do dono dos fogões Hipólitos, que na altura era coisa boa; a cabeça do fogão nunca se estragava, enquanto os outras custavam dez escudos, os Hipólitos custavam 50 escudos. Eu fui lá ver com a Nani, ali na Lapa, uma casa muito chique, uma vivenda muito grande.

O Carmona veio a Paço de Arcos inaugurar a escola Dionísio Matias, estava eu na 1ª classe. Eu era pequenina e muito loirinha, e como estava na primeira fila, ele olhou para mim e disse: então minha pequenina tu já andas na escola? Eu devia parecer ter para aí uns 5 anos, mas tinha sete. Então ele deu-me um beijinho. Fui a única criança que ele abordou.


Praia das Fontaínhas, com Firmino, ‘bon vivant’, que ao que consta
nunca trabalhou, vivendo ás custas da mãe e das tias, e que morava
na casa hoje Restaurante Dízima, mesmo em frente aos Socorros
a Náufragos. Agosto de 1958, já casadinhos, presumivelmente,
Liliana e seu ‘mais-que-tudo’ Armando ‘carinhas’ Aires.


Também conheci muito bem a Amália Rodrigues, porque o meu irmão Manel era muito amigo do José de Castro desde os tempos de escola. O meu irmão era telegrafista na tropa, sabia Morse e isso tudo. Fez um aparelho para transmitir

e iam para a Regueira (como ele era comunista), embora o meu irmão não fosse de políticas.

O Zé dava-lhe fatos e camisas, e comia em casa deles porque esteve desempregado 3 anos. O meu irmão tomava conta de nós, as irmãs, e então levava-nos também lá a casa, e quando não havia mais nada, o Zé dava-nos queijo e manteiga, que não tínhamos em casa. Ás vezes também lá estava a Amália Rodrigues.

Quem por vezes aparecia era o Philip Taylor, que foi o primeiro ciclista de Paço de Arcos. Muito famoso (como ciclista), a bicicleta dele está no museu do Caramulo. O Armando conheceu-o; o prédio do Guedes era dele. Foi lá que ele nasceu e morou. Era dono dos Armazéns Godinho onde era o Seco. Morreu com 88 anos. Era atleta, fazia pesos e halteres."


1958. Dezasseis anitos e casou-se.





Relato na primeira pessoa de uma conversa com a Liliana e com o bardino Fernando Reigosa.





Colaboração do Bardino Fernando Reigosa.



24 de janeiro de 2010

AS ESTÓRIAS DA BARDINAGEM 05

OK, KO ou Hóquei???????


Tal tá a moenga, hem?

Numa terra que respira hóquei em patins mais e melhor que qualquer outra neste planeta, onde quase toda a gente nasceu ‘em cima de patins’, onde quase toda agente transporta uma miríade de genes hóquistas no sangue, há não sei quantas gerações, e ninguém se ‘chega à frente’ com historietas, recordações e outras ‘balhanas’ hóquistas?

E eu, puto que nunca se conseguiu sequer equilibrar em cima dos patins, que chego a esta terra em plena áurea mundial do CDPA, sem sequer perceber a maioria dos nomes importantes dessa saga, sem sentir o apelo, que sempre me espantou com a loucura do ‘chamado’ aos jogos de hóquei no simpatiquíssimo ringue Leocádio Pórcio; eu é que vou ter que puxar pelo ‘bestunto’ para dizer meia dúzia de barbaridades?

Valha-me Deus, gente inepta.

Para vossa vergonha vou desatinar meia dúzia de coisas e episódios, que, muito provavelmente, vai obrigar uns quantos a virem à liça corrigir-me. Ao menos isso.


Os Artistas

Nos princípios dos anos 40, quando cheguei a Paço de Arcos, ouvindo conversas do meu pai com as visitas e amigos, tomei consciência que o CDPA era o melhor Clube do mundo, em termos desportivos, e, apenas no hóquei em patins, sendo como tal conhecido e respeitado por todo o lado.







Não me recordo de ter visto jogar o Emídio Pinto, mas ainda me lembro do Manuel Gomes, do António Henriques, do Jesus Correia e do Correia dos Santos. Seguramente que me esqueço de alguém. Que me desculpem.

Mais tarde, já eu por conta própria, ainda jogava o velho Correia dos Santos, tive oportunidade de ver uns quantos que fizeram nome, e que mantiveram, de algum modo, o nome de Paço de Arcos em alta.


Vilaverde, o único guarda-redes que eu vi recusar a máscara, por atrapalhar, dizia ele, que terá sido popularizada já ele era guarda-redes de enorme nível. Daí umas quantas marcas na cara que ainda perdurarão.

O Campos, defesa raçudo, que não hesitava em ‘aviar’ umas quantas ‘sticadas’ em quem o aborrecesse, dentro e fora do campo. Recordo-me de um jogo, julgo que com o Sporting, em que alguém, penso até que mulher, sentada na bancada terá desferido impropérios inaceitáveis, para o Campos, que motivou resposta rápida com duas ou três ‘sticadas’ para a bancada, atingindo várias pessoas. Não me lembro de como acabou, porque, miúdo na época, logo que havia confusão, estava instruído para sair de cena.


O Silvino Valente, jogador elegante, bem comportado, muito bom guarda-redes.


O Virgílio, médio de grande habilidade e virtuosismo, daqueles que decidem os jogos, mas quando dava para endurecer, nunca deixava o seu amigo Campos sozinho.


O Carlos Abreu, porventura uma das melhores ‘produções’ do Xico ‘Arolha’ (falaremos a seguir). Avançado virtuoso, a um tempo ágil e poderoso, que muitos estragos fez nas equipas adversárias, daí a ‘procura’ e o assédio que teve pelas equipas mais ricas.


O Pompeu defesa ainda mais poderoso, mas com deficit de agilidade que compensava com enorme entrega, inclusive do seu peso.


O Rosa Soares, mais conhecido por Bacalhau, que era um avançado extremamente habilidoso e rápido, que tinha uma característica única (digo eu). Quando a equipa estava em queda, sem conseguir reagir, ou, e sobretudo, algum adversário lhe ‘ia aos fagotes’, então as enormes potencialidades deste eclético jogador simplesmente explodiam. Um deleite para a vista.


Quatro brilhantes guarda-redes marcaram sucessivamente (a ordem não garante fidelidade ao tempo), Carlos Abrantes (Camané), Louro, Rui Monteiro e “Nicha” da Silva, a excelência da defesa das redes Paçoarquenses.


Outros tantos defesas, com a mesma premissa temporal, marcaram a minha memória; Américo Bravo, suficientemente competente, Alfredo(inho), fininho mas duro quanto baste para suprir algum deficit habilidoso (nunca comprometeu), José Soares, também suficiente para ‘equilibrar’ a equipa, e o Rafael ‘Cabecinha’, este já com um andamento bem diferente, capaz de promover desequilíbrios com a qualidade do seu jogo e o empenhamento notável.


Mas as delícias supremas da minha memória, e dos companheiros com quem eu conversava à época, residem em dois médios (que então eram quem funcionava como ‘pivot’, sendo distribuidor de jogo, auxiliar do defesa e desequilibrador no ataque), da mais completa excelência. Não conheço e terei séria dificuldade em aceitar outra opinião, com uma única excepção que adiante mencionarei. Foram eles o Alvarinho e o Vieirinha. Nunca vi nada assim. Rápidos, extraordinariamente habilidosos, versáteis e, para cúmulo, bem comportados (desportivamente e não só), autênticos dominadores. Um deleite para os olhos e almas desportivas.

Dois avançados merecem-me aqui referência, geração mais nova, mas de enorme qualidade, o Virgílio (filho) e o Rui Aires, que souberam sair de mediania a nível nacional, daí os horizontes que puderam explorar, particularmente o Virgílio em terras italianas.

Daqui para a frente devo ter partido para outras ‘aventuras’, porque exceptuando o Jaime que foi um bom avançado, não se me acende nenhuma luz, Àqueles que foram ignorados neste prosa, as minhas desculpas, mas é apenas a minha memória, quase que ‘outsider’. Agora arregacem as mangas e mostrem a vossa sabedoria.

Além destas, outras situações/jogos me empolgaram bastante, fora da aura desta Vila. Aquela equipa nacional com os três ‘masters’ oriundos de Moçambique, Fernando Adrião (o tal médio que ocupa o primeiro lugar na minha memória), acompanhado por uma dupla de avançados demolidora, que, em minha modesta opinião, só fica a perder para os nossos primos Correia, Velasco e Bouçós, e apoiados por outro jogador de outra galáctica, que foi o Vaz Guedes. Outro deleite.

Não podia encerrar esta extensa enumeração sem mencionar o, talvez, mais extraordinário jogador de todos os tempos: Livramento. Este foi único, e mais não digo.

Agora atrevam-se, digam coisas.


Coisas soltas

As primeiras memórias concentram-se nas aventuras que aconteciam no Jardim após os jogos, onde, a bem dizer tudo podia acontecer, e terá acontecido.

O meu começo nestas (des)organizações foi nas árvores. Industriado por companheiros destas aventuras, mal terminavam os jogos, subíamos ás árvores para não sermos apanhados no turbilhão que se desenvolvia, com consequências muitas vezes sérias, e, aprendi um pouco mais tarde, completamente independente do resultado do jogo.

O que era preciso era haver porrada, porque sem isso o jogo ficava como que incompleto. Rotinas!

Nunca assisti, mas muitos me contaram, com toda a carga de veracidade, que era relativamente habitual os árbitros irem à doca, ou seja a turba pegava neles, dirigia-se à doca e atirava-os para dentro de água. Verdade? Lenda? Fico à espera.

Carros de árbitros danificados, isso vi, diversas vezes. Um árbitro em particular, Carlos Bica, apesar dos esquemas que sempre inventavam para evitar estragos, saiu daqui diversas vezes em más condições.

Cargas de polícia no jardim era outro dos hábitos instalados no final dos jogos e quando a agitação subia de tom, o que acontecia quase sempre. Como sempre há uns quantos justos a pagarem pelos pecadores. Era o caso do Frederico dos jornais, coitado, sentado num banco de jardim do lado da marginal, a ser abordado por um par de polícias que ‘varriam’ a zona, e não conseguindo responder à ordem para sair dali, a não ser tremelicando, como era da sua condição, levava umas quantas bordoadas, até que os polícias se distraíssem com outra coisa. Não poucas vezes com os putos a desafiar os ‘chuis’.

Noutra ocasião viu-se uma cena em pleno centro do jardim, em frente ao coreto, dois parceiros grandes e pesados em discussão fervorosa que acabou em pugilato. Até aqui nada de extraordinário, só que ambos eram amigos e velhos companheiros na terra e de jogatanas no clube, não me recordo dos nomes. Sócios do CDPA, claro, mas a cena passou-se a seguir a um Paço de Arcos/Benfica, cujo resultado também não me recordo, só que sendo um deles sócio e simpatizante do Benfica, os argumentos não se ajustaram, e vai daí ….

Nós, os putos, gostávamos mesmo era dos jogos com o Sporting, porque traziam sempre um pequeno grupo de apoio, que se sentava, invariavelmente, na esquina mais perto da marginal. Integravam esse grupo, duas varinas gordas e altas com o palavreado que se pode imaginar, constantemente durante o jogo, e que sentavam entre elas um homem, que aparentava ser mais novo, magrinho, sempre vestido de amarelo, e que tinha uma voz de falsete fina e estridente. Claro que utilizámos todos os truques para provocar esta gente, inclusivamente do lado de fora do ringue. Dava-nos gozo as suas reacções destemperadas, dos três.

Não posso terminar esta diatribe sem referir um nome incontornável na história de Paço de Arcos e do seu hóquei patinado.


XICO AROLHA (nem sei se está bem escrito)

Nunca contactei com o homem, mas vi-o em actividade, conheço o fruto de seu trabalho, vi o seu comportamento modesto e desinteressado. Fiquei seu fã. Ele nunca o soube, mas também não seria preciso.

A pergunta surge óbvia (e perdoem-me se cometo alguma vilania): a menção da sua extraordinária dedicação ao Clube e à terra estará perpetuada em algum lugar? Para que os vindouros saibam que havia gente capaz de pôr outros interesses (os do Clube) acima dos seus?


Os putos do Xico Arolha






Colaboração do Bardino Fernando Reigosa.



21 de janeiro de 2010

AS ESTÓRIAS DA BARDINAGEM 04

OS MALANDROS
DO ANTIGAMENTE

Quando dou por mim a ver os estragos em todo o tipo de bens públicos, desde o vulgar caixote de lixo até a telefones, bancos de jardim, etc. - incluindo os famosos ‘grafitis’ -, que sistematicamente vão sucedendo, quase sempre de noite porque visíveis (novas situações) todas as manhãs, pergunto-me o que poderá motivar este tipo de desatinos, e por que ‘carga de água’ estes putos não se entretêm com outra coisa, já que têm á disposição uma série de possibilidades que no nosso tempo não tínhamos.

Todos conhecemos várias explicações, de todo o tipo. Umas mais coerentes, outras nem tanto. A verdade, quer se queira, quer não, tudo reside num muito simples facto; a evolução da sociedade. Boa? No mau sentido? Descuidada?! Simplesmente diferente. Só podemos aceitá-la e influenciar os nossos próximos no bom sentido (segundo a nossa douta opinião).

Leva-me isto a recordar algumas peripécias dos meus tempos de menino.

Por volta dos meus 20 anos, causei espanto e acesa discussão na família, quando comprei umas calças de ganga cor-de-rosa, imagine-se! ‘Coisa de maricas’, diziam uns, ‘são os novos tempos’ diziam outros.

Na época, por imposição paternal, já que chumbara uma vez no 4º ano do liceu, e outra no 5º , manifestando algum desinteresse, trabalhava de manhã no escritório de um advogado que tratava sobretudo do registo de marcas e patentes, a minha função, e estudava à tarde no Liceu Francês.

Como consequência da polémica, comprei então uma camisola (‘pullover’ como se dizia na época) também cor-de-rosa. Foi a guerra ‘institucional. ‘Provocação’ para uns, ‘libertinagem’ para outros. Cruzaram-se argumentos até que o meu pai, verdadeiro democrata, impôs o silêncio à família, deixando-me em tranquilidade.

Noutra ocasião, tendo eu um fato de ‘trabalho’ cinzento com estreita risca branca como mandavam as regras do bom gosto vigente (que perduraram, lembram-se do Mota Pinto?), decidi comparecer em algumas festas, de certo modo escandalizando os mais antigos (que não velhos), porque usava com o fato uma ‘t-shirt’ amarelo-torrado (“lacoste”, como mandavam os regulamentos da época), sem gola mas com um ligeiro debruado branco. Eu gostava, mas contrariava as combinações de vestuário tradicional, sendo mesmo uma atitude “very shoking”.

Mas, voltando ao assunto inicial, entretenimento na época, não tenho memória desse tipo de necessidades, estragar. Divertíamo-nos imenso, posso assegurar, e nunca prejudicámos ninguém, a não ser por pequenos incómodos.

Para além do óbvio, beber umas cervejas e decidir os destinos do mundo, do futebol, e praticar um pouco de salutar má-língua, andar no ‘engate’, ir aos bailes para uns quantos ‘esfreganços’, tínhamos várias brincadeiras que nos ocupavam todo o tempo de libertinagem (agora sim), que vou referenciar em quatro áreas principais.

Quase toda a população jovem nesta terra participava, mas alguns eram verdadeiros campeões. Apenas apontarei alguns nomes (que me merecem destaque nesta matéria) porque seria impossível ser exaustivo.


1. Meninas

Foi um dos grandes êxitos da malandragem Paçoarquense. Saltou fronteiras, internacionalizou-se, chamou gente de todos os quadrantes, e atingiu metas inimagináveis (só faltou vendermos a patente).

Não sendo inédita, foi uma brincadeira levada com ‘profissionalismo’ por este pessoal. Sempre desempenhada de madrugada, para surtir o efeito interessante.

Consistia em sentar um dos ‘artistas’ no muro da marginal, quase sempre em frente á estátua do Patrão Lopes, calças arregaçadas acima dos joelhos, meias enroladas para baixo e lenço na cabeça, acenando aos automobilistas que iam passando.

Naturalmente que pensando tratar-se de ‘meninas’ á procura de clientes, uns quantos afoitavam-se a contornar, no intuito de abordar a ‘menina’, ou mesmo parando em frente ao ‘artista’.

Era a altura para o resto do pessoal escondido até então por trás do muro, aparecer em forte alarido, provocando o susto ou a raiva ao incauto.

Houve de tudo.

Aqueles que fugiam apavorados.

Aqueles que achavam graça á brincadeira, e até, em bastantes casos, se juntavam ao grupo (principalmente gente estrangeira).

Os envergonhados, que paravam 20 metros á frente, e faziam pisca á espera que a ‘menina’ se acercasse. Nesta última, por duas vezes, foram apanhados padres (também são gente).

Os do tipo ‘não tenho medo de ninguém’, que ao verem uma multidão ululante e gesticulante avançando em sua direcção, simplesmente contra-atacavam, pondo em debandada a turba.

Aqueles que se punham em fuga, para telefonar à polícia, que quando aparecia, provocava o ‘salve-se quem puder’, cada um para seu lado, sempre com resultados satisfatórios; não há notícia de alguma vez alguém ter sido agarrado.

Havia também quem parasse em amena cavaqueira com o pessoal, por vezes originando acidentes. Outros automobilistas viam uma multidão de volta de um carro, de madrugada, e, com a inerente curiosidade, distraiam-se o suficiente para ir chocando em cadeia, altura em que o pessoal escapulia rapidamente.

Eram verdadeiros campeões no papel de meninas, o ‘Daducha’, o Zé António, o Vasco e o Luís Torres (mais conhecido pelo Torres ‘Merda’).

Nota: Infelizmente três destes amigos já morreram; sobra, tanto quanto julgo saber, o ‘Daducha’ (companheiro doutras aventuras, que a seu tempo virão a lume, ‘assim me sobre engenho e arte’).


2. Fio de pesca

Esta era uma brincadeira bem mais inofensiva, e muito conhecida, mas que sempre surtia efeito.

Era levada a cabo durante o dia; fim de tarde era o que colhia melhores efeitos, pela descontracção das pessoas nessa altura, descomprimindo as ‘agruras‘ do dia.

Dois ‘artistas’ simulavam estar a estender um fio de pesca ao longo da muralha, forçando os pobres transeuntes a procurar o fio, e tentar passar por cima para não tropeçar ou prejudicar o trabalho dos ‘artistas’.

Nada de mais. Mas sempre nos dava algum gozo, sobretudo quando, eventualmente, algum passeante dava pela marosca.


3. Casamentos

Esta era uma brincadeira bem mais complexa, e que requer uma introdução.

Na época era vulgar (?) haver algum pessoal homossexual, colocado em sítios propícios, a cativar quem não se importasse de, a troco de algum dinheiro, satisfazer esse tipo de necessidades (?).

Era assim em Lisboa, na Av. da Liberdade, na Praça Marquês de Pombal, etc., tal como eram conhecidos alguns dos ‘requisitantes’, como por exemplo o ‘marquês da luva branca’.

Paço de Arcos, mais propriamente o Jardim Marquês do Pombal, era infestado diariamente, à noite, por gente dessa em busca dos soldados recém colocados na escola Electromecânica, e que por aí se passeavam.

A brincadeira, usualmente bem aceite, consistia em obrigar dois desse ‘caçadores’ a desempenhar uma completa cerimónia de casamento, junto à estátua do Patrão Lopes, naturalmente que com a nossa bênção.

Os campeões desta área eram o Zé Manel Arrobas, o Zé Pracana e, também o ‘Daducha’.


4. Telefonemas

Talvez a mais ‘chata’ de todas as brincadeiras, pelo adiantado da hora em que a praticávamos.

Coisa simples.

Corria-se a lista telefónica à procura de nomes de animais: leão, carneiro, gato, cordeiro, o que quer que fosse.

Ligava-se para casa dessa pessoa e abordava-se com uma história previamente engendrada. O mais comum era dizer que fugira do Jardim Zoológico o animal desse nome e depois esperar as reacções.


O grande campeão desta especialidade, era o Américo Bravo, infelizmente também já desaparecido.

Nota: Haverá que esclarecer que defraudávamos a companhia dos telefones, porque não introduzíamos qualquer moeda (as chamadas eram sempre feitas de cabines telefónicas), antes utilizávamos um método infalível, na época, hoje não será o caso, e que consistia em atravessar o fio do telefone com um alfinete, de modo e entrar em contacto com o fio metálico, e encostar o alfinete na área metálica da caixa de suporte do telefone, accionando a chamada. Nunca falhou.

Verdade, verdade, é que, como quer que fosse, nunca depauperámos o erário público, exceptuando os tostões da nota acima.

Outros tempos, como dizia a minha avozinha.



Colaboração do Bardino Fernando Reigosa.


19 de novembro de 2009

AS ESTÓRIAS DA BARDINAGEM 03



120 ANOS DA LINHA DE CASCAIS (SOCIEDADE ESTORIL)

Gostava de dar aqui o meu contributo sobre os dez anos que utilizei a linha (de 1953 a 1963) e que basicamente resumem um historial de acções heróicas na época, mas talvez pouco recomendáveis nos dias de hoje. A saber:

Passar à crava Nos meus primeiros anos de Liceu as “assinaturas de comboio” eram constituídas por um rectângulo com quadradinhos numerados de 1 a 52 e que cobriam assim duas viagens diárias, ida e volta, por mês (sábado incluído); a parte central do cartão era formado por um rectângulo mais pequeno com números de 1 a 12 para os meses do ano e respectiva fotografia.

Nós fazíamos no LNO 4 viagens por dia, o que obrigaria à emissão de dois cartões dos de 52 números por mês. Não me lembro de alguma vez ter sobrecarregado o meu pai com essa despesa adicional, já que ia fazendo o possível e o impossível para gastar no máximo 2 viagens por dia (muitas saídas e entradas em Santo Amaro, e às vezes, raramente, o recurso a penaites casa-liceu-casa).

Na história do passar à crava ficará para sempre gravada a célebre frase do nosso conterrâneo Luís Carlos Silveira do Carmo, um dos mestres dessa arte, … e o revisor olhou para mim e não me viu.


Entrar e subir em andamento – Comboios de seis e sete carruagens que ocupavam a totalidade da gare e conseguíamos subir e descer no limite, normalmente com grandes falanges de apoio dentro e fora que nos davam o impulso necessário para tal feito.

Passar a ponte a pé – Proeza sem grande registo de relevo se fosse feita pelas travessas visíveis nas laterais dos carris do comboio, na parte superior da ponte, mas que ganhava outra dimensão se fosse feita debaixo da linha só com o apoio da estrutura metálica.

Refiro-me à ponte de ligação entre S.Amaro e Oeiras que foi substituída recentemente, tendo assistido, simplesmente por acaso, com profunda emoção a essa operação (um dos engenheiros da transferência, tendo-se apercebido da minha emoção veio oferecer-me um capacete de protecção para continuar a ver os trabalhos, caso contrário teria que abandonar o local), talvez um bocado piegas mas lembro-me de dizer na altura OBRIGADO VELHA PONTE.


Fico por aqui, porque já me dói o dedo.
Abraços bardinos.




Colaboração do Bardino Fernando Sampaio.


AS ESTÓRIAS DA BARDINAGEM 02



CINE-TEATRO DE PAÇO DE ARCOS

Não terão sido muitas as representações de Teatro naquela sala, mas recordo-me de ter participado em algumas na minha juventude.

Numa, de carácter religioso, sob a direcção da Bébé (eu creio de Giovanni Papini) fazia de mordomo, e iniciava a peça com uns bons 10 minutos sozinho em cena num pretenso atendimento telefónico, que devia ter alguma graça já que a plateia ria com gosto.

Só que no decorrer da representação, já com o drama bem instalado, sempre que entrava em cena, o público mimava-me com os mesmos risos de satisfação da fase inicial, o que já não se adequava ao texto bem pesado que versava sobre um jovem cego que recuperava a vista por força da FÉ.

Lembro-me que o papel principal estava entregue a um moço de Caxias, Eduardo Cruz de seu nome, e entre outros que me lembre, estavam o Paulo Brás e o Arrobas da Silva (rápidas melhoras para ele).

Numa outra peça com encenação do Virgílio Tavares, a história era sobre fantasmas, em que eles, os fantasmas, eram representados pelas raparigas, chefiadas pela Liliana (mulher do Armando “Carinhas” Aires) e os amedrontados eram os rapazes comigo à carola; também aí o público riu a bom rir, o que me faz pensar que se perdeu aqui um bom comediante; paciência…



Na parte do Cinema relembro o fenómeno curioso que ocorria especialmente nas soirées, em que as sessões começavam normalmente com meia casa, e acabavam quase cheias.

Um dos grandes responsáveis por este enchimento sazonal era o Albertino Cara de Alpergata que pela porta lateral do lado dos sanitários, no pátio da fábrica de mosaicos e pirolitos, ia permitindo um acesso silencioso e respeitador a uma plateia sedenta de cultura e de algibeiras vazias.

Eu pertencia a um grupo de privilegiados, já que o Albertino era sócio do meu pai e do pai do Edmar (Manuel Calceteiro) numa fabriqueta clandestina de água-pé que todos os anos pelo S. Martinho produzia uns litritos do saboroso líquido (bem me saía do corpo, principalmente dos pés tal produção) rapidamente consumidos; mesmo dando de desconto os habituais exageros próprios da grande distância que nos separam de tal evento, iria jurar que nunca bebi água-pé tão saborosa como aquela; o borbulhar e o piquinho a enxofre eram inigualáveis.


Última recordação para o Salão Vitória, palco de grandes bailaricos, marchas, cegadas e outro tipo de diversões, que também merece ser lembrado.



Colaboração do Bardino Fernando Sampaio.


AS ESTÓRIAS DA BARDINAGEM 01


Começamos hoje a publicação de pequenos textos que contam estórias em que os protagonistas são a bardinagem ou pessoas cá da terra com conhecimento ou participação de alguém do grupo d'Os Bardinos!

Esperemos que a bardinagem colabore e torne este espaço um espaço muito participativo e que as estórias revelem momentos de boa disposição e de entretenimento.

O primeiro bardino a colaborar neste espaço é o nosso amigo Sampiao e esperamos que o exemplo dele seja seguido pela restante bardinagem.

Venham as Estórias para podermos fazer, também, a História de Paço de Arcos e da sua Bardinagem!!!



Colaboração do Bardino Vitor Martinez.