Mostrar mensagens com a etiqueta Paço de Arcos e o Hóquei em Patins. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Paço de Arcos e o Hóquei em Patins. Mostrar todas as mensagens

8 de março de 2009

DE PAÇO DE ARCOS PARA.... CONQUISTAR O MUNDO (II)



Na sequência do "post" anterior, escrito pelo bardino Reigosa, tomamos a liberdade de transcrever na íntegra e com a devida vénia ao autor, o texto que Carlos Pinto Coelho escreveu no blog "Textos longos, passatempos, etc & tal...".


O discreto treinador da equipa-maravilha de Moçambique

que venceu o Mundo em Montreux ( 1958 )




Por Carlos Pinto Coelho

De repente, o meu tio Armando era um herói. Fazem ideia do que é ter 14 anos de idade e um tio herói? Pois eu conto.

Estava-se na Lourenço Marques dos anos 50. O irmão de minha mãe Sara chamava-se Armando de Lima Abreu e vivia lá em casa, longe da sua mulher e filha, que tinham ficado em Oeiras. Muito magro, alto, aloirado, de nariz delgado onde se encaixavam uns óculos de aros finos, era o homem mais calmo que jamais conheci. Falava em voz branda, sorria com facilidade e tinha paciência para mim. Eu gostava do tio Armando.
.
Pois o tio Armando trabalhava no Sindicato, era lá escriturário, acho eu, que era muito miúdo para saber dessas coisas. Sei que o via sair todas as manhãs cedinho, a tomar o autocarro da carreira 3 que ia da Polana para a Baixa e o deixava mais adiante, na Pinheiro Chagas, que era onde ficava o S.N.E.C.I. (Sindicato Nacional dos Empregados do Comércio e Indústria).
.
Ao cair da tarde já toda a gente estava em casa, o meu pai trabalhando processos do Tribunal da Relação, a minha mãe metida na biblioteca lendo ou escrevendo livros, o meu irmão José ouvindo música, eu às voltas com os trabalhos do colégio dos Maristas. Só o tio Armando é que nunca estava. E nós sabíamos porquê: ele andava pelo ringue de patinagem do Sindicato a ensinar os putos a andar de patins e a dar esticadas numa bola pequenina, preta e rija como madeira. Era assim todos os dias, às seis da tarde o meu tio vestia calças compridas brancas e camisa branca de manga curta, impecavelmente engomadas lá em casa, calçava sapatilhas também brancas e ia para a sua paixão, nascida em Paço d’Arcos e nos seus copos com Jesus Correia e Correia dos Santos e sei lá quem mais: o Hóquei em Patins. Acho que o meu tio nunca gostou verdadeiramente de mais nada senão da filha Fátima, que trazia na carteira em fotografia, e do hóquei. Eu achava tudo bem, porque ele tinha paciência para me ouvir.
.
Durante mais de uma década aquele homem dedicou integralmente os seus tempos livres, as suas forças e o melhor do seu entusiasmo a ensinar jovens a equilibrarem-se nos patins, a coordenarem movimentos e a usarem a cabeça para se articularem uns com os outros como uma verdadeira equipa deve fazer. Ele era, sem pompas nem cargos, um meticuloso formador, dirigente e treinador. E sem ganhar um tostão! Era tudo amor à camisola, tudo pago do bolso de cada um. Quando saltava uma roda de patim, a malta quotizava-se para comprar outra. As camisolas e os calções eram oferecidos pela fábrica de malhas da cidade e, como só havia uma, ela tinha de dar equipamento para todos os clubes: o Malhangalene, o Desportivo, o Ferroviário… todos.
.
Eu tinha 14 anos, como já disse. Para mim o que valia eram o voleibol, onde eu era campeão do meu colégio, e a piscina, onde havia gajas boas. De modo que raras vezes fui ver os treinos do tio Armando, onde em vez de gajas havia uns tipos que não me interessavam a ponta de um chifre, e que se chamavam Fernando Adrião, Amadeu Bouçós, Francisco Velasco, Alberto Moreira e Manuel Carrêlo, entre outros.

Lembro-me bem de uma noite em que o tio Armando se fez esperar mais do que o habitual e minha mãe tinha um empadão a murchar no forno. Ele chegou tarde, desolado, porque tivera de levar um dos seus “miúdos” ao hospital (de resto muito perto do Sindicato), com uma entorse num tornozelo durante o treino. A minha mãe seria uma santa mulher mas flor de estufa não era quanto a pontualidades. De maneira que houve mesmo patanisca, por causa do Bouçós (ou foi o Velasco, já não sei) que se magoou no ringue, naquele fim de tarde.
.
Até que um dia, tinha eu 14 anos, repito, o meu tio desapareceu de casa durante umas semanas e regressou herói. Tinha ido lá a Portugal com os seus miúdos e depois foram para a Suíça (fui ver no Atlas onde ficava) e ganharam a jogar contra o mundo inteiro. O tio Armando tinha levado as suas sapatilhas e roupa branca e era treinador da equipa de hóquei em patins que vencera o mundo representando Portugal no Torneio de Montreux. Em 1958 isso era deveras importante.
.
Houve uma multidão à espera deles todos, no aeroporto de Lourenço Marques (chamava-se Aeroporto de Mavalane). E publicaram-lhes fotografias nos jornais “Notícias“ e “Diário “ (ou seja, na Imprensa inteira) eram campeões do mundo, até falaram no Rádio Clube de Moçambique e tudo. Os putos-campeões disseram muitas vezes que deviam tudo ao tio Armando, mas nenhum jornalista quis ouvir o que ele próprio tivesse para dizer. E ele não se importou com isso. Estava mesmo feliz. À maneira dele, calmo e discreto. Mesmo assim, durante uns dias, eu vi como os vizinhos lhe davam abraços, de manhã, quando ele ia apanhar o autocarro para o Sindicato. Por isso, e porque lá em casa foi uma festa pegada de empadões, eu percebi que tinha um tio herói.
.
Armando de Lima Abreu ficou por Moçambique depois da independência e dizem-me que por lá morreu, sozinho, sem glória nem fortuna, e sem dar sinal de vida a todos nós, que entretanto tínhamos vindo para Portugal.
.
Eu tinha 14 anos nesse ano de 1958, como acho que já disse. Mas agora, que sou mais velho, fui à página que a Federação Portuguesa de Patinagem tem na Internet e pedi para ver a fotografia dessa equipa-maravilha que veio de Moçambique vestir a camisola de Portugal no Torneio de Montreux, com o meu tio Armando como treinador nacional. A fotografia está lá. O Velasco, o Bouçós, eles todos. Mas o meu tio não está na fotografia dos campeões. Acho que é porque ele, na altura, era só um escriturário do Sindicato.

Gosto muito do meu tio Armando, sabem? Ele tinha paciência para mim.


Na foto, vê-se a equipa referida no texto, vencedora da Taça das Nações de Montreux/Suiça em 1958 - Selecção de Moçambique em representação de Portugal. Em 1.º plano: Vasco Romão Duarte, Eduardo Passos Viana, Alberto Moreira, Victor Rodrigues. Em 2.º plano: António Souto, Abílio Moreira, Francisco Velasco, Fernando Adrião, Amadeu Bouçós, Manuel Carrelo.



DE PAÇO DE ARCOS PARA.... CONQUISTAR O MUNDO (I)

Toda a gente que se preza neste ‘cantinho’ sabe quem é Carlos Pinto Coelho, ilustrérrimo concidadão, de verticalidade infelizmente rara nos dias que correm.

Acontece que este nosso amigo tinha um tio, de sua graça Armando de Lima Abreu. Sei, não vos diz nada. Já lá vai um bom meio século.

Este cavalheiro habitou neste Concelho, mais propriamente na vila de Oeiras, na adolescência e no início sua vida adulta.

Mas foi em Paço de Arcos que conviveu com os primos Correia (Jesus Correia e Correia dos Santos) e outros, consolidando o gosto pelo hóquei patinado, na ‘carolice’ que então diferenciava aqueles que souberam sair da mediania mostrando que quando se quer de verdade, o céu é o limite.

Tal como a ilustre personagem disse, e outros repetiram, o Armando de Lima Abreu teve um sonho quando em final dos anos 40, rumou a Moçambique, Lourenço Marques, para melhorar a sua vida profissional. Durante anos batalhou em condições precárias, com pertinácia e sacrifício pessoal, ensinando aquilo que aprendera (e sonhara) em Paço de Arcos.

Cerca de uma década mais tarde, viajou com um conjunto de (ilustres) desconhecidos – Fernando Adrião, Amadeu Bouçós, Francisco Velasco, Alberto Moreira, Manuel Carrêlo, etc.-, seus discípulos, para Lisboa e depois Montreux na Suiça, onde, para espanto de todos ganhou para Portugal o Campeonato do Mundo de hóquei em patins (1958).

Honra-nos prestar-lhe esta simples homenagem.

Consta que, infelizmente, no site da Federação Portuguesa de Patinagem não existe uma única fotografia de Armando de Lima Abreu. É pena, e é injusto.


Fernando Reigosa