
VOCÊ SABIA QUE ……………
O Clube Desportivo de Paço de Arcos teve, nos em finais da década de 60 e princípio da década de 70, uma secção de Bridge, que esteve filiada na Federação Portuguesa de Bridge?
O Bridge foi, em tempos, considerado um jogo de elites, de nobres.
Na verdade trata-se de um jogo de cartas entusiasmante, por não ser dependente exclusivamente da distribuição das cartas, logo da sorte, antes da perícia dos jogadores em interpretar o significado das vozes (anúncios de vasas e naipes feitos pelos jogadores à mesa), e da capacidade de entendimento com o parceiro.
Popularizou-se quando umas quantas equipas internacionais se profissionalizaram - os italianos Garozzo/Beladona foram os mais ‘galácticos’ - e, sobretudo, quando o actor egípcio Omar Shariff, muito em voga pelo sucesso do filme Dr. Jivago, que protagonizou, entre outros, contratou a sua própria equipa para andar a jogar pelo mundo.
Uma verdadeira paixão. O casino do Estoril foi palco destas exibições por diversas vezes. O público podia seguir em directo os jogos, numa sala ao lado da dos jogadores, em ecrãs gigantes, e pasmar-se com as peripécias do leilão e do carteio.
Quatro associados do Clube, Carlos Abrantes (Camané), João Marques Pereira (Juca), Fernando Reigosa e João Barosa Pereira, à época entusiastas (maduros) do jogo e já com “curricula” em torneios de equipas, apalavraram com a Direcção, a criação de uma secção, sem dispêndio financeiro para o Clube, apenas necessitando de um espaço (pequena sala ao lado das mesas de bilhar/’snooker’) e de uns quantos baralhos de cartas, naturalmente.
O objectivo era o de criar uma escola de Bridge, e, consoante o nível desenvolvido, fazer participar algumas equipas em torneios organizados por outras entidades, numa primeira fase, e depois passar a organizar torneios em Paço de Arcos (aí o Clube teria que fornecer taças e medalhas, porque o dinheiro das inscrições ficaria ‘em caixa’, para custear deslocações dispendiosas), e passar a representar o Clube em actividades da Federação Portuguesa de Bridge com prestígio.
A recolha foi profícua. No início corresponderam à chamada uns quantos (excedendo as expectativas) aprendizes. Élio Coelho, Fernando Natividade, Armando Maia, Margalho, Luís Coelho, Fernando Coelho, Luís Torres, Augusto Martins, Antero (estes dois em serviço na Escola de Electromecânica de Paço de Arcos), João Manuel Pinto, Fernando Sampaio, etc.
Tal como planeado, uns melhor, outros nem tanto, foram-se aprumando técnicas de leilão (fundamental: ver nota sobre os procedimentos do jogo) e de carteio, a ponto de se irem cumprindo as expectativas.
Foram vários os bons resultados conseguidos, com torneios ganhos e um número de boas classificações, quer em pares quer em equipas, com realce para uma representação no Clube de Ténis do Estoril, com vitória em pares e em equipas, e diversas muito honrosas classificações em torneios organizados pela Federação Portuguesa de Bridge (nível nacional).
Decorrida uma primeira fase de carácter estrutural e de formação (equipas e técnicas), a secção ‘abalançou-se’ para a organização de torneios.
Foi uma época muito empolgante e de enorme satisfação ao nível de resultados, porquanto, invariavelmente (quase que), eram equipas CDPA a ganharem os torneios, e/ou ficarem nos primeiros lugares.
Convirá nesta altura explicar ao leitor que as equipas, nesta fase, eram formadas por pares que incluíam (tanto quanto possível) um ‘veterano’ e um ‘aluno’ de modo a dar ‘entrosamento’ a todos.
Foi uma táctica bem concebida, na medida em que os resultados demonstraram a eficácia do sistema, a par do ‘crescimento’ dos menos ‘rodados’.
Princípios e procedimentos do Jogo
Este é um jogo de pares, dois contra dois.
O jogo divide-se em duas partes distintas. O leilão e o carteio.
Leilão
Decide a marcação de trunfo (ou sem trunfo), e o correspondente nível (numero de vasas), através de ofertas (numero de vasas), em subida, segundo a hierarquia dos naipes.
O fito do leilão é anunciar ao parceiro os nossos naipes, e/ou interesses, de modo a conseguir o melhor contrato comum. Para tanto utilizam-se regras/sistemas e convenções, normalmente pré combinadas entre os parceiros.
Nota curiosa a reter é que durante o leilão, qualquer jogador pode perguntar ao parceiro daquele que anunciou um naipe, o que ele entende por aquele anúncio específico, não podendo ser enganado, sob pena de, incorrer em pesada penalização pontual a ser decidida pelo árbitro.
Nota: Todos os torneios são comandados por um árbitro que gere o torneio, garante a imparcialidade, e as contagens de pontos de jogo e de torneio.
Carteio
Uma vez estabelecido o contrato final, o jogo inicia-se com uma carta de saída do adversário imediatamente á esquerda do declarante (aquele que primeiro anunciou o naipe objecto do contrato final).
Após este desenvolvimento, o parceiro do declarante expõe as suas cartas sobre a mesa, e a partir daí apenas joga as cartas que lhe são indicadas pelo parceiro, estando impedido de fazer comentários, sugestões ou qualquer outra manobra que possa influenciar a ‘linha’ de jogo.
Como se percebe, a ‘mão’ do morto (designação do parceiro do declarante), fica á vista, inclusivamente dos adversários que podem livremente utilizar essa informação adicional para o seu plano de jogo.
Os torneios
Existem dois tipos de torneios, de pares e de equipas.
Os procedimentos são idênticos para ambos, com as necessárias cambiantes.
Sorteiam-se os pares/equipas, e as correspondentes mesas. A cada mesa é atribuída uma carteira numerada que transportará de mesa em mesa as quatro ‘mãos’ devidamente identificadas por posição.
Isto serve para que a carteira circule por todas as mesas, permitindo que outros pares joguem com as mesmas mãos.
No fim são verificadas as diferenças pontuais, e feita a classificação, tendo em conta os melhores resultados obtidos, o número de jogos feitos (comparação com outros pares), e o número de mesas percorrido.

Como tudo na vida, este projecto esmoreceu e acabou por desaparecer, em consequência do espaço utilizado na Sede do Clube ter sofrido séria inundação, que para além de ter causado avultados prejuízos, durou imenso tempo para ser recuperado (não tenho mesmo notícia de quando isso aconteceu).
Os jogadores habituais preferiram organizar-se em pequenos grupos e jogar entre si, perdendo-se a dinâmica existente.
Ao que me disseram na época, passaria exactamente por baixo daquela sala uma antiga ribeira, que terá sido tapada, mas que nesse ano, devido á grande intensidade das chuvas, (aluíram partes da avenida marginal, julgo que em Carcavelos) terá subido o nível das águas alagando o espaço e dificultando soluções.
E assim morreu uma secção que também contribuiu para levar o nome de Paço de Arcos a outros patamares.
Colaboração do Bardino Fernando Reigosa.