15 de fevereiro de 2010

FIGURAS DA VILA 22 (II)

EUNICE


Eunice do Carmo Muñoz nasceu em 1928.

Considerada por muitos como a melhor actriz portuguesa de sempre.

Só podia fazer muito calor no dia em que Mimi Muñoz deu à luz Eunice. A casa da avó que a viu nascer ficava no ponto em que o Alentejo toca Espanha - na Amareleja (Moura), a terra mais quente de Portugal. Foi no dia 30 de Julho de 1928. Ali nasceram e dali partiram várias gerações de artistas. A sua avó, Augusta do Carmo, considerada a Palmira Bastos do teatro de província, percorria o País na companhia do marido com quem criara a Troupe Carmo. Mimi, a sua mãe, seguira a tradição e iniciara nova aventura na companhia do marido Hernâni, que descendia de famosos artistas do Circo Cardinali.

Aos 5 anos, contrariada, Eunice já pisava os palcos. Ainda pensava poder fugir. “No início da sua vida, o teatro era como uma maldição”, lembra o historiador Vítor Pavão dos Santos. Mas foi a experiência ganha nestes primeiros tempos que lhe permitiu, aos 13 anos, conseguir o primeiro papel no teatro profissional. Dava início à sua colaboração com a companhia de teatro Rey Colaço-Robles Monteiro, a maior e mais conceituada daqueles tempos.

Eunice estreou-se em 1941, na peça Vendaval, de Virgínia Vitorino, no Teatro Nacional D. Maria II. O seu talento é de imediato reconhecido, e admirado por Palmira Bastos, Raul de Carvalho, João Villaret ou pela própria Amélia Rey Colaço, o que lhe permite uma rápida integração na Companhia. Em 1943 contracena com Palmira Bastos em Riquezas da Sua Avó, uma comédia espanhola aportuguesada por Ascensão Barbosa, José Galhardo e Alberto Barbosa, ao que se segue, no ano seguinte, Labirinto, de Manuel Pressler. No Verão desse ano protagoniza a opereta João Ratão, ao lado de Estêvão Amarante. Continuou a coleccionar sucessos, ao lado de Maria Lalande e Irene Isidro (Raparigas Modernas, de Leandro Torrado), sendo ainda dirigida por Maria Matos em A Portuguesa, de Carlos Vale. Já aluna do Conservatório Nacional de Teatro celebriza-se em A Casta Susana, de Georg Okonkowikski. Termina o Conservatório, com 18 valores. Populariza-se no palco do Teatro Variedades, com Vasco Santana e Mirita Casimiro na peça Chuva de Filhos, de Margaret Mayo.



Em 1946 dá-se a sua estreia no cinema, aparecendo no filme de Leitão de Barros, Camões. Por esta interpretação, Eunice ganha o prémio do SNI - Secretariado Nacional de Informação, para a melhor actriz cinematográfica do ano. Um Homem do Ribatejo (1946), de Henrique Campos e Os Vizinhos do Rés-do-Chão (1947), de Alejandro Perla, são os trabalhos que se seguem.

Em 1948 regressa ao Teatro Nacional para protagonizar Outono em Flor, de Júlio Dantas. Seguidamente Espada de Fogo, de Carlos Selvagem, encenado por Palmira Bastos, é um êxito retumbante.

Trabalha novamente no cinema, protagonizando A Morgadinha dos Canaviais, de Caetano Bonucci e Amadeu Ferrari (1949), adaptado do romance homónimo de Júlio Dinis. Participa ainda num filme de Henrique Campos.

Volta aos palcos em 1950, com a comédia Ninotchka, de Melchior Lengyel, contracenando com Igrejas Caeiro, Maria Matos e Vasco Santana. Em 1951 ingressa na Companhia do Teatro Ginásio, dirigida por António Pedro. Dessa época salienta-se A Loja da Esquina, de Edward Percy.

Passa pelo Teatro da Trindade e retira-se por quatro anos da actividade teatral, para exclamação dos jornais, dos críticos e do público. A sua reaparição dá-se em Joana D' Arc, de Jean Anouilh, no palco do Teatro Avenida. Multidões perfilam-se pela Avenida da Liberdade, desejosas de obter um bilhete para ver Eunice, que a crítica aclama como genial.

Tanto no teatro como no cinema, os êxitos sucederam-se ininterruptamente, alternados com o casamento e o nascimento da primeira filha. No entanto, com apenas 23 anos de idade e 10 de carreira, decide parar. Eunice “sem medo” abandona o palco e vai trabalhar para a loja de cortiças da Rua da Escola Politécnica, fundada pelo conhecido “Mr.” Cork.

Em 1957, depois da peça A Desconhecida, de Pirandello ingressa juntamente com Maria Lalande, Isabel de Castro, Maria José, Ruy de Carvalho, Fernando Curado Ribeiro e Fernando Gusmão no Teatro Nacional Popular, sob a direcção de Ribeirinho, onde interpreta Shakespeare (Noite de Reis), Júlio Dantas (Um Serão Nas Laranjeiras) e Luiz Francisco Rebello (Pássaros das Asas Cortadas), entre outros autores.

Já nos anos 1960, passa para a comédia na Companhia de Teatro Alegre, ao Parque Mayer, ao lado de nomes como António Silva ou Henrique Santana. No Teatro Monumental fez O Milagre de Anna Sullivan, de William Gibson (Prémio de Melhor Actriz do SNI ex-aequo com Laura Alves - 1963).


No filme "O Trigo e o Joio", de Manuel de Guimarães,
com Igrejas Caeiro (1965).


Aparece então com regularidade na televisão, em peças repetidas por desejo expresso do público, como O Pomar das Cerejeiras, de Anton Tchekov; A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho; Recompensa, de Ramada Curto; Os Anjos Não Dormem, de Armando Vieira Pinto; ou séries, como Cenas da Vida de Uma Actriz, doze episódios de Costa Ferreira, ao lado de sua mãe, Mimi Muñoz.

Regressa à comédia, contracenando com Virgílio Teixeira e Igrejas Caeiro em Mary-Mary no Teatro Variedades. Em 1965 Raul Solnado funda a Companhia Portuguesa de Comediantes (CPC), no recém inaugurado Teatro Villaret. Eunice recebe o maior salário, até aqui nunca pago a uma actriz dramática: 30 contos mensais. A peça de estreia é O Homem Que Fazia Chover, de Richard Nash, encenado por Alain Oulman. Seguiram-se interpretações de Tennessee Williams e Bernardo Santareno.


"As Raposas", de Lillian Hellman,
com Maria Lalande (1966).


Regressa ao Teatro Variedades e ao Teatro Experimental de Cascais onde protagoniza Fedra, de Jean Racine em 1967.

Em 1970 funda, com José de Castro, a Companhia Somos Dois, com a qual faz uma longa tournée por Angola e Moçambique, dirigida por Francisco Russo em Dois Num Baloiço, de William Gibson. Estreia-se na encenação com A Voz Humana, de Jean Cocteau.



Em 1971 volta ao palco do Teatro da Trindade (Companhia Rey Colaço/Robles Monteiro), ao lado de João Perry para fazer O Duelo, de Bernardo Santareno. No mesmo ano integra uma nova formação artística no Teatro São Luís onde interpreta José Régio. Com a proibição pela censura, a poucas horas da estreia, de A Mãe, de Stanislaw Wiktiewicz, em que Eunice era a protagonista, o director da companhia, Luiz Francisco Rebello, demite-se e cessa a actividade desse conjunto prometedor.

Dedica-se, então, à divulgação de poetas que ama, quer em disco, quer em recitais, dando voz a Florbela Espanca ou António Nobre, voltando ao teatro para interpretar As Criadas, Jean Genet, juntamente com Glicínia Quartin e Lurdes Norberto, na encenação do argentino Victor Garcia, no Teatro Experimental de Cascais.

Faz uma longa tournée por África na companhia de Carlos Avilez, onde se contam as peças Fedra, de Jean Racine, e A Maluquinha de Arroios, de André Brun.

O silêncio de Eunice volta a instalar-se depois de 25 de Abril de 1974. Só regressa ao Teatro Nacional quatro anos depois, integrada na companhia do reaberto Teatro Nacional D. Maria II, onde viverá êxitos enormes, interpretando peças de Donald Coburn, John Murray, Bertolt Brecht, Hermann Broch, Athol Fuggard, Eurípedes, entre outros, trabalhando com encenadores como João Perry, João Lourenço ou Filipe La Féria em Passa por Mim no Rossio (1992).

Já na década de 90, aparece em filmes e telenovelas, como “A Banqueira do Povo” que deixa marcas indeléveis. Vítor Pavão dos Santos não hesita em dizer que foi “uma das grandes interpretações que se viu na televisão em Portugal, se não a maior”.

Aparecerá também em vários filmes, tendo uma interpretação antológica, em Manhã Submersa, de Lauro António (1980) e Tempos Difíceis, de João Botelho (1987).



Em 1991, celebram-se os seus 50 anos de Teatro, com uma exposição no Museu Nacional do Teatro, sendo Eunice condecorada, em cena aberta, no palco do Teatro Nacional, pelo Presidente da República, Mário Soares, quando invocava, de forma magistral, a figura de Estêvão Amarante, na revista homenagem, de Filipe La Féria.

A Maçon, escrito pela romancista Lídia Jorge propositadamente para Eunice, vai a cena em 1997 no palco do Teatro Nacional.

A Casa do Lago (2001), de Ernest Thompson, encenado por La Féria, foi a cena no Politeama em 2001.

Em 2006 representou pela primeira vez na casa a que deu nome, o Auditório Municipal Eunice Muñoz, em Oeiras, com a peça Miss Daisy, encenada por Celso Cleto.

Em 2007 co-protagoniza com Diogo Infante Dúvida, de John Patrick Shanley, sob a direcção de Ana Luísa Guimarães no Teatro Maria Matos. Em Maio de 2008 é agraciada com o Globo de Ouro de Mérito e Excelência.



Em 2009 regressa ao Teatro Nacional D. Maria II (sala Garret) com a peça O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion, sob a encenação de Diogo Infante, e a música de João Gil, com um exigente monólogo baseado nas memórias da autora que depois de visitar a filha, internada com uma infecção generalizada, perde o marido durante o jantar, vítima de um ataque cardíaco.



Avassaladora.




Galardoada várias vezes ao longo da vida, não conseguiu fugir ao chamamento do teatro que lhe corria no sangue, apesar de algumas paragens pelo caminho. Conquistou o País com a humildade que se percebe nos grandes. “Eunice é uma actriz que ultrapassa o que é ser actriz”, diz o insuspeito historiador Vítor Pavão dos Santos.


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Ao JER e à EUNICE, o nosso MUITO OBRIGADO, por serem o que são e por nos darem o prazer da vizinhança.






Colaboração do Bardino Fernando Reigosa.


2 comentários:

Anónimo disse...

Amigo Fernando Reigosa

Excelente trabalho, os meus parabéns.
Também morava em Paço de Arcos, outra grande actriz: Cremilda Gil, habitava no prédio do Professor Coelho, ainda está no activo, mas não sei se ainda aí mora,outra Senhora do cinema que chegou a actuar com o Grande António Silva,
mas não recordo o seu nome.
Paço de Arcos está bem representado nas Artes.
Um abraço
Virgilio Miranda

Fernando Reigosa disse...

Tem o meu amigo toda a razão. A malta não é jovem, mas parece. Estas coisas dão muito trabalho, vai ter que ser devgarinho. Agradeço a lembrança, já a pus na lista das dos trabalhos a desenvolver.
Saudações marítimas.